8. MUNDO 19.9.12

1. BILIONRIOS NO EXLIO
2. A VOLTA DO PESADELO AMERICANO

1. BILIONRIOS NO EXLIO
Governo francs aumenta carga de impostos sobre os ganhos dos mais ricos e provoca uma reao inesperada: a debandada dos abastados para pases vizinhos
 Pedro Marcondes de Moura

O ator Alain Delon, mito do cinema nas dcadas de 1960 e 1970, se mandou para a Sua. Chef estrelado do guia Michelin, Alain Ducasse bateu em retirada. Bernard Arnault, dono da marca Louis Vuitton, pediu cidadania belga. Isabelle Adjani, atriz consagrada, Jo-Wilfried Tsonga, nmero 6 do ranking mundial do tnis, Laetitia Casta, modelo internacional, Charles Aznavour, um dos mais populares cantores europeus, todos eles tm em comum, alm da nacionalidade francesa e da farta conta bancria, o fato de terem se bandeado para outras naes. Eles so o que os franceses chamam de exilados fiscais, a casta de compatriotas ricos que escolheu viver em territrios vizinhos para escapar da elevada carga tributria. A revolta dos bilionrios se agravou no domingo 9, quando o presidente Franois Hollande, que assumiu o comando do pas h quatro meses, anunciou uma mordida de 75% sobre os ganhos de quem recebe acima de um milho de euros anualmente (o novo percentual vale pelos prximos dois anos). Para justificar a medida, Hollande afirmou que a estratgia  reerguer a nao sem desmontar as bases do sistema de seguridade social. O cenrio preocupa: o desemprego afeta um em cada dez franceses, a dvida pblica est perto de 90% do PIB e a economia desacelera perigosamente.

AUSTERIDADE - Presidente socialista Franois Hollande mantm promessa de taxar ricos
 
A debandada dos bilionrios acompanhou o crescimento do candidato do Partido Socialista, Franois Hollande, na corrida  Presidncia. Antes de sacramentar o retorno da legenda ao poder aps um hiato de 17 anos desde a sada de Franois Mitterrand, Hollande j alardeava que os ricos seriam seu alvo preferencial no programa de elevao de impostos. Para o cientista poltico francs Stphane Monclaire, da Universidade de Paris, taxar os milionrios  uma iniciativa mais simblica do que efetiva. Estima-se que no mais do que 30 mil franceses esto na faixa de rendimentos atingida pela guilhotina de 75%. Os aumentos menores dos impostos em cima da classe mdia e dos lucros das empresas  que devem ampliar a arrecadao, diz Monclaire. Para os que recebem acima de 150 mil euros, a mordida passar de 41% (percentual at ento vlido para a classe mdia, para os ricos e para os muito ricos) para 45%.

Em meio s incertezas econmicas, os franceses tentam adivinhar quem ser o prximo exilado fiscal. Uma suspeita recaiu sobre a atriz Emmanuelle Bart, celebridade no pas, que precisou negar as informaes de que, por ter residncia na Blgica, pagava tributos por l. Eu moro, trabalho e pago meus impostos na Frana, disse Emmanuelle. Acho que  indecente o exlio fiscal, especialmente em tempos de crise. No faltam convites para que os endinheirados se retirem. O primeiro-ministro ingls, James Cameron, declarou recentemente que estenderia tapetes vermelhos aos vizinhos abonados. O caso mais emblemtico foi mesmo o do empresrio Bernard Arnault. Com uma fortuna estimada em US$ 41 bilhes e o ttulo de homem mais rico da Frana, ele controla marcas como Louis Vuitton, Mot Chandon e Givenchy. Um dia aps o presidente Hollande anunciar o novo tributo, um veculo de comunicao belga divulgou que Arnault pediu cidadania ao pas. Mesmo negando a inteno de deixar de pagar seus tributos na Frana, o empresrio se tornou uma espcie de vilo. Autoridades socialistas logo resolveram coloc-lo como o smbolo mximo daqueles que, enquanto os outros dividem o po, preferem fugir com a cesta de brioches.


2. A VOLTA DO PESADELO AMERICANO
Atentado que provocou a morte do embaixador dos EUA na Lbia faz renascer o temor de nova onda terrorista e aumenta tenso poltica entre Barack Obama e Mitt Romney
Laura Daudn 

AL QAEDA - A organizao pode estar por trs dos violentos protestos na Lbia
 
A conteceu na tera-feira 11 de setembro, dia em que os Estados Unidos pararam para lembrar os 11 anos dos ataques contra o World Trade Center. John Christopher Stevens, embaixador americano na Lbia, e outros trs funcionrios do Departamento de Estado foram mortos em circunstncias ainda controversas durante uma ofensiva contra o consulado da cidade de Benghazi. Atribuda a muulmanos furiosos com a divulgao de um filme que apresenta o profeta Maom como um bufo, a ao terrorista foi a primeira em 33 anos a provocar a morte de um embaixador dos Estados Unidos. Se  cedo para dimensionar os efeitos da tragdia,  razovel supor que ela vai provocar transformaes. Faltando menos de dois meses para as eleies presidenciais que vo definir o futuro de Barack Obama, os atentados tm potencial para mudar radicalmente os rumos da disputa, colapsar os novos governos do mundo rabe e arruinar a estratgia militar americana para a regio.

CONVULSO - Protestos tomaram conta da embaixada dos EUA no Cairo (acima). O embaixador Stevens (abaixo) seria morto horas depois em ataque ao consulado de Benghazi

As primeiras informaes mostram que o ataque na Lbia diferiu em muitos aspectos dos protestos que ocorreram na semana passada do Marrocos  Indonsia e deixaram centenas de feridos e pelo menos oito mortos. Ainda que as justificativas apresentadas para as manifestaes tenham sido as mesmas  a difamao cometida pelo misterioso diretor do filme , h indcios de que o ataque de Benghazi tenha sido orquestrado previamente por milcias salafistas. A Ansar Al-Sharia, que vem desafiando o frgil governo lbio com diversos ataques contra mesquitas, encabea as suspeitas. Ao seu lado pode estar uma clula da Al Qaeda. No  uma possibilidade descabida. Ao contrrio dos outros manifestantes, os lbios estavam bem organizados e fortemente armados com metralhadoras e lana-granadas. Outro detalhe preocupa a Casa Branca: poucas horas antes do ataque que matou Stevens, a Al Qaeda postou um vdeo na internet conclamando seus seguidores lbios a vingar, no dia 11 de setembro, a morte do militante Abu Yahya al-Libi, assassinado em junho por um avio no tripulado americano. No incio os protestos eram da mesma natureza, uma reao ao que as pessoas consideraram um insulto ao profeta, afirmou  ISTO Jocelyne Cesari, da Escola de Estudos Internacionais Avanados da Universidade John Hopkins, dos Estados Unidos. Mas o assassinato do embaixador foi resultado de uma operao poltica de um grupo jihadista que se aproveitou da ocasio para alcanar seus objetivos. A resposta do presidente Barack Obama refletiu essa preocupao. No se enganem, a justia ser feita, disse ele em um pronunciamento oficial na quarta-feira 12. Pouco depois, autoridades do Departamento de Estado afirmaram que dois destrieres, cinquenta marines especializados em aes antiterroristas e avies no tripulados estavam a caminho da Lbia para aumentar a segurana das representaes americanas no pas. A movimentao conta com o respaldo do governo lbio, que chegou a prender quatro suspeitos na noite da quinta-feira 14 sem, no entanto, especificar sua participao no ataque. A reao de Obama acalmou provisoriamente os nimos em seu comit de campanha, ainda atordoado pelas bravatas que o candidato republicano Mitt Romney e seus porta-vozes se dispuseram a repetir em meio  crise. Romney vem sendo duramente criticado por capitalizar politicamente a morte de cidados americanos.
 
A troca de farpas entre os candidatos imps um novo tema  campanha eleitoral, at agora centrada em assuntos domsticos. Obama ser cobrado por seu alinhamento com os grupos que protagonizaram a chamada Primavera rabe, especialmente no caso do Egito, pas que recebe US$ 2 bilhes de ajuda americana por ano. O estremecimento das relaes pde ser sentido em uma entrevista de Obama a um canal de televiso na quinta-feira 13: O Egito no  um aliado, nem um inimigo. Pouco depois, um porta-voz da Casa Branca viu-se obrigado a esclarecer que o pas era um parceiro prximo e que as relaes no haviam mudado. O desgaste poltico no ser s de Obama. Pela primeira vez, Mitt Romney ter de mostrar quais so seus planos para o Oriente Mdio e de que maneira sua estratgia difere das falidas polticas republicanas. Pouco antes de morrer, Stevens escreveu um e-mail que revelou suas expectativas otimistas para a Lbia. As pessoas sorriem mais e esto muito mais abertas aos estrangeiros, afirmou. Espero que dure.  
